Estudando o Evangelho


O objetivo que nos levou em 1957 — Ano do Centenário — à elaboração do “Estudando a Mediunidade”, que mereceu confortadora acolhida dos nossos estimados confrades, inspira-nos também, agora, neste novo trabalho: “Estudando o Evangelho”, à luz do Espiritismo. Esse objetivo é o de servir, com sinceridade e amor, à causa do Evangelho e do Espiritismo. Cristianismo e Espiritismo nos têm enriquecido e felicitado os dias da existência física, ensinando-nos o respeito a Deus e aos nossos semelhantes, bem assim induzindo-nos a amá-los, o que nos põe na condição de pessoa altamente devedora, tanto a um, quanto ao outro. Sentimos a necessidade de esclarecer aos companheiros que, porventura, vierem a ler o “Estudando o Evangelho”, que lhes não comparecemos à presença na leviana atitude de quem se julga em condições de explanar, exclusivamente para outrem, as redentoras belezas da Boa Nova do Reino. Comparecemos, sim, envergando, conscientemente, o esfarrapado uniforme de nossa indigência espiritual — muito maior, infinitamente maior do que as nossas limitações materiais. O mais correto, em verdade, seria afirmarmos que os cinquenta e oito capítulos que constituem o livro, elaborados, alguns deles, sob a cariciosa envolvência de almas delicadíssimas, destinam-se, especial e primordialmente, a nós próprios. É imprescindível ressaltar que, se nos falece o direito de escrever sobre as verdades cristãs pensando, apenas, nos outros, o que traduziria imensa vaidade e ridícula insensatez. assiste-nos, inegàvelmente, o universal direito de estudá-las e de comentá-las, segundo o nosso entendimento. De meditar e escrever em torno delas, visando a convertê-las, sobretudo, em alimento para a nossa alma ansiosa por evoluir. Conforme se deduz do título — “Estudando o Evangelho” à. luz do Espiritismo —, os temas por nós apreciados trazem, como não podia deixar de ser, a marca de nossa abençoada Doutrina Espírita. Doutrina de esclarecimento — que tem sido luz em nosso caminho. Doutrina de redenção — que nos tem amparado a fragilidade. Doutrina de renovação — que nos tem apontado rumos mais certos, reajustando-nos, convenientemente. Em cada frase, em cada conceito, pobremente expostos, reconhecemos, encontrar-se-á, assim o desejamos, aquela substância doutrinária que torna mais grandiosa a personalidade augusta de Nosso Senhor Jesus-Cristo. Que torna mais claros os Seus ensinos. Mais compreensivas as Suas palavras. Mais límpidas as Suas lições. Evidentemente, em sã consciência ninguém hoje pode contestar, o pensamento evangélico permaneceu oculto durante longos séculos à Humanidade inteira. Na melhor das hipóteses, esteve ele sensivelmente adulterado desde os inesquecíveis dias da “Casa do Caminho”, nos arredores de Jerusalém, quando os primeiros e legítimos herdeiros do Evangelho o transformavam em ação e trabalho. Transubstanciavam-no em ajuda e socorro, a favor dos filhos do sofrimento. Era necessário, portanto, ressuscitá-lo. Restabelecer-lhe o vigor e a beleza. Restaurar-lhe a grandeza divina, para que o Cristo não continuasse na limitada condição de chefe de religiões, mas, sim, como bênção de luz, sublime e universal, na experiência evolutiva de cada ser. A missão, por assim dizer ressurrecional, coube ao Espiritismo. E ele a vem realizando, com dignidade e nobreza, com eficiência e galhardia, sem trair o mandato honroso que o próprio Cristo lhe outorgou, na promessa do Consolador que viria. A cortina que escondia o fulgor do Evangelho esmaecido havia dezessete séculos, começou a ser afastada logo após os memoráveis dias da Codificação, quando Allan Kardec, o excelso Missionário, estabeleceu, na França de Flammarion e Vitor Hugo, os fundamentos da Doutrina, os alicerces, científicos e filosóficos, que nenhum temporal haveria de abalar, jamais, porque construídos sobre a rocha da lógica e com a argamassa do bom-senso. Encarnados e desencarnados, notadamente estes últimos, harmonizaram esforços neste sentido, em magníficos e isócronos movimentos divulgadores Médiuns abnegados surgiram em toda a parte, fertilizando a Terra, canalizando para o mundo, vitalizada e sublime, a palavra do Mestre de Nazaré O Filho de Maria voltava ao seio da Humanidade. Retornava ao Convívio dos homens, para lhes recordar as lições de simplicidade e amor. Reencontrava as Ovelhas tresmalhadas, que se haviam distanciado, invigilantes, do aprisco. As portas dos Céus se abriram, amplas e generosas, a fim de que, por elas, jorrassem mensagens de luz que iriam Concitar as Criaturas ao esclarecimento Superior, à própria edificação íntima. Renasceram, no coração, dos homens, esperanças que se afiguravam mortas. Nos recantos mais escondidos da alma humana as sementes da fraternidade recuperaram a primitiva seiva, romperam a terra agreste, acolheram o beijo do Sol e a carícia das chuvas, transformaram-se em árvores frutescentes Refloriram, numa primavera de luz e cores, os carvalhos da indulgência que o obscurantismo houvera estiolado. Cristalina e pura, fluiu dos mananciais do Infinito, das nascentes cósmicas a água que sacia por toda a eternidade A mesma linfa que o Mestre ofertara à mulher samaritana, quando descansava à borda do poço de Jacob, no suave crepúsculo de Sicar: — “Deus é Espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em Espírito e Verdade.” Secundando o esforço da Espiritualidade Maior, ou, Certamente, lhe executando o programa, Inúmeros companheiros ainda envergando a libré física, grafaram em livros e artigos, valiosos conceitos, notáveis interpretações que constituem, ainda hoje, bálsamo para as horas de provação, claridade para os momentos de sombra. Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, Sayão, Viana de Carvalho, Leopoldo Cirne, M. Quintão, Caírbar Schutel e tantos outros, legaram à literatura evangélica do Espiritismo o fruto de seus fecundos labores, na esfera da pregação escrita e falada.

A vida desses obreiros, que têm sido inspiração e estímulo para os atuais servidores do abençoado Santuário de Ismael; o devotamento de suas almas; a exuberância de suas virtudes e a firmeza de suas convicções permanecem inolvidáveis na memória da família espírita brasileira, por mensagem viva que o tempo, as Incompreensões e os sucessos não conseguiram apagar. Não há tempo, melhor ou pior, para a divulgação do Evangelho. Para que as suas luzes entrem por cima dos telhados, a fim de aquecerem os lares do mundo inteiro. Não há tempo para que as suas clarinadas repercutam nos montes e nos vales, nas praias e nos sítios distantes, despertando os homens para os embates da renovação e do progresso com o Senhor. Na atualidade, todavia, quando o nosso orbe querido vive as tormentosas experiências que precedem, via de regra, as grandes e definitivas transições, o enaltecimento da figura do Cristo, a divulgação do Seu Evangelho e a prática dos Seus ensinos representam imperativo inadiável. O Mestre continua sendo a maior — a mais sublime e-eterna realidade que o Mundo conheceu até os nossos dias. A sua palavra permanece. Educando e salvando. Confortando e soerguendo. Renovando e iluminando para a Imortalidade Gloriosa. 

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